sábado, 19 de junho de 2010

Memórias

"Deve ser horrível - diz você - o escândalo em torno de nossa memória. O homem arrastado ao pelourinho do escárnio público e ao pasto da maledicência, deve ser uma fogueira de angústia para o coração acordado, além da morte".

Você tem razão.

A ave, em pleno céu, que se visse constrangida a voltar à casca do ovo, ou a árvore luxuriante que fosse obrigada a retornar para a cova de lodo, sofreriam menos que a alma desencarnada, sob a intimidação de regresso às perigosas infantilidades da experiência humana.

Em tais circunstância, laços mais pesados nos religam o espírito, com mais intensidade, a gleba da carne, e a voz dos nossos julgadores, não raros, nos converte os ouvidos em receptores gigantescos para os quais convergem todos os apontamentos justos ou injustos de quantos nos apreciam a conduta e as decisões.

Você já pensou num homem, cujo o corpo seja uma chaga viva, tangindo violentamente por milhares de mãos descaridosas e rude?

Esse é o símbolo pálido com que ousamos qualificar o suplício do infortunado que lega aos contemporâneos as recordações da própria viagem pela Terra, quando essas memórias se referem às situações que fazem o enferno dos seus semelhantes...

Creia você que, em verdade, tudo isso é terrível e doloroso, de vez que o arrependimento irremediável nos tranforma em duendes infortunados, em aflitivas peregrinação.

Não adimita, porém, que isso seja apenas lamentável previlégio de alguns.

Não é necessário fixarmos reminiscência da Terra, em bronze ou papel, para que a vida nos revele aos outros tais quais somos.

Trazendo conosco o arquivo que nos é próprio.

Sentimento e idéias, palavras e ações são marcas em nossa alma.

todos alcançaremos o plano em que nosso espírito é um livro aberto.

Intenções ocultas, interferências nos destinos alheios, assaltos desfarçados à felicidade do próximo, crimes consagrados pela admiração do mundo, misérias íntimas e desequilíbrios morais aparecem claramente, espantando a nós mesmos, que não suspeitávamos, de leve, da nossa própria degradação.

Vodê que conhece tão bem o assunto, cuide dos seus passos e vele pelo futuro de sua alma eterna, porque a existência, meu caro, seja onde for, é sempre um livro que nosso coração anda escrevendo.

Irmão X
do livro: Sentinelas da luz

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...