domingo, 27 de junho de 2010

Museu de cera

Muito embora a exaltação dos mortos já comumente falaciona homenagens aos vivos, os filhos de Deus integram, em toda parte, uma só família.

O corpo físico é apenas envoltório para efeito de trabalho e de escola nos planos de consciência.

Os piores corpos habitam, por vezes, as melhores almas.

O mesmo perfume é suscetível de ser transportado, tanto no vaso de latão quanto na ânfora de cristal.

Cada túmulo representa um destino, um caminhao ou um exemplo que passaram. A sepultura para muitas almas é estranho repouso, leito hospitalar ou enxerga carcerária.

O cemitério pode ser comparado a museu de cera onde se expõem e se desmancham as formas criaturas, e não a essência de que se constituem na eternidade. Os corpos que aí se desfazem assinam simplesmente estágios e tarefas do espírito.

São as estátuas manchadas daqueles que passaram pela carne e nada fizeram.

Bonecas adornadas e mudas recordando mulheres que viveram exclusivamente para cuidar de si mesmas.

Mantos venerandos de mães que transformaram lágrimas em sementes de luz...

Hábitos missionários largados pelos que, um dia, se consagraram ás lides religiosas.

Farrapos de mendingos em que discípulos da virtude ensaiaram paciência e humildade...

Fantasias dos turistas da vida e da morte que se enganaram com a função do dinheiro, envenenando, não raro, a existência e perdendo o tempo...

Pensa nos que ontem estavam na Terra renteando-te os passos e hoje se encontram em paragens diferentes, na certeza de que te encontras na carne para execução de serviço determinado.

Não te ensoberbeças pelo que tens, nem te desesperes acreditando que algo te falte.

Trabalha, fazendo o bem.

Cada homem e cada mulher receberam na vida os instrumentos de amor e de dor para atenderem à missão que lhes cabe na arena do mundo.

O berço é o ninho de entrada.

O sepulcro é o museu da saída.


Autor: Eurípedes Barsanulfo
Do livro: Seareiros de volta

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