terça-feira, 3 de agosto de 2010

A caridade

A caridade tem outras formas que não a solicitude pelos desgraçados. A caridade material, ou a beneficência, pode se aplicar a um certo número de nossos semelhantes, sob a forma de socorro, de sustentação, de encorajamento. A caridade moral deve se estender a todos aqueles que partilham da nossa vida nesse mundo. Ela não consiste mais em esmolas, mas numa benevolência que deve envolver todos os homens, do mais virtuoso ao mais criminoso, e regular nossas relações com eles. Essa caridade, todos podemos praticá-la, por mais modesta que seja nossa condição.

A verdadeira caridade é paciente e indulgente. Não magoa, não desdenha a ninguém, é tolerante, e se procura dissuadir, é com doçura, sem machucar nem atacar as idéias enraizadas.

Entretanto, essa virtude é rara. Um certo fundo de egoísmo nos leva muito mais a observar, a criticar os defeitos do próximo, enquanto nos cegamos para com os nossos. Mesmo que haja em nós tantos defeitos, empregamos voluntariamente nossa sagacidade para fazer sobressair os defeitos dos nossos semelhantes. Por isso, não há verdadeira superioridade moral sem a caridade e a modéstia. Não temos o direito de condenar nos outros faltas a que nós mesmos estamos expostos; e, embora nossa elevação moral nos tenha libertado dessas fraquezas para sempre, não devemos esquecer de que houve um tempo em que nos debatíamos contra a paixão e o vício.

Há poucos homens que não têm maus hábitos a corrigir, deploráveis pendores a reformar. Lembremo-nos de que seremos julgados com a mesma medida que nos tenha servido para medir nossos semelhantes. As opniões que temos deles são quase sempre um reflexo da nossa própria natureza. Sejamos mais prontos em desculpar do que em censurar.

Autor: Léon Denis
Do livro: Depois da Morte

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