segunda-feira, 17 de março de 2014

Existe a proibição do contato com os espíritos na Bíblia?

Existe a proibição do contato com os espíritos na Bíblia?
Existe a proibição do contato com os espíritos na Bíblia?



Essa é uma idéia muito usada para combater o Espiritismo. Mas qualquer pensamento racionalizado sobre isso leva a um resultado óbvio de que tal afirmação não procede. Analisemos então: existe realmente a proibição de contato com os espíritos na Bíblia? Sim, existe (daí vem um ponto interessante: se existe é porque é possível, certo? Mas isso é um outro assunto a ser discutido – leia mais em preconceitos sobre a comunicação com os espíritos). No entanto: onde, como e por quê?






Levítico, 20:27
O homem ou mulher que consultar os mortos ou for feiticeiro, certamente será morto. Serão apedrejados, e o seu sangue será sobre eles.

Levítico, 19:31
Não vos voltareis para os que consultam os mortos nem para os feiticeiros; não os busqueis para não ficardes contaminados por eles. Eu sou o Senhor vosso Deus.

Deuteronômio, 18: 9-14
Quando entrares na terra que o Senhor teu Deus te dá, não aprenderás a fazer conforme as abominações daqueles povos. Não se achará no meio de ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador, nem quem consulte um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz estas coisas é abominável ao Senhor, e é por causa destas abominações que o Senhor teu Deus os lança fora de diante de ti. Perfeito serás para com o Senhor teu Deus. Porque estas nações, que hás de possuir, ouvem os prognosticadores e os adivinhadores; porém, quanto a ti, o Senhor teu Deus não te permitiu tal coisa.

Está aí a proibição. Clara, objetiva. A lei mosaica realmente proibia expressamente o contato com os espíritos. Tal proibição foi feita à época (há mais de 3000 anos) por ser necessária àquela sociedade, àquele povo. O contato com os mortos era feito indiscriminadamente, por motivações adivinhadoras (vide o que levou Saul a uma necromante – I Samuel, 28:3-11), muitas das vezes explorando-se a ingenuidade e/ou ignorância das pessoas, originando no final das contas uma forma de comércio. Qualquer um poderia (e hoje ainda pode) se proclamar vidente e cobrar "pequenas" taxas para "descobrir" o futuro do cliente (leia mediunidade profissional e charlatanismo). Tal não é a natureza dos contatos com o plano espiritual realizados por médiuns espíritas. Vê-se que tal proibição era uma norma adequada a uma determinada sociedade, não sendo por isso necessária sua adoção por todos os outros povos por toda a eternidade. Muito menos é comparável a natureza do povo hebreu à época, em suas intenções no contato com os mortos, à natureza dos espíritas hoje quanto a isso. “O Espiritismo veio mostrar o objetivo exclusivamente moral, consolador e religioso das relações de além-túmulo, já que os espíritas não interrogam os mortos para conhecerem o futuro; repudiam todo tráfico da faculdade que alguns receberam de se comunicarem com os espíritos e não estão movidos nem pela curiosidade nem pela cupidez, mas por um sentimento piedoso e pelo único desejo de se instruírem, de se melhorarem e de aliviarem as almas sofredoras”. (Trecho de O Céu e o Inferno.)

Desse modo, a proibição de Moisés não concerne ao Espiritismo de modo algum.

Existe aqui um fato ainda que deve ser analisado: a lei mosaica é constituída de duas partes, a saber, a lei de Deus propriamente dita, promulgada no Sinai; e a lei civil ou disciplinar, apropriada ao caráter e ao costume dos hebreus à época. A primeira é imutável, já que perfeita, em sendo a Lei de Deus; a segunda é variável, já que imperfeita, e se modifica continuamente com o tempo. Para testemunho de imperfeição da segunda temos duas alternativas: o mero raciocínio e as palavras de Cristo.

Primeira alternativa

A lei mosaica contém todo um conjunto de normas que deveriam ser seguidas pelos hebreus (um verdadeiro código civil). Lendo os capítulos do Levítico, por exemplo, veremos várias regras, de maior ou menor grau de importância. O interessante aqui é usar os três versículos citados no início do texto para atacar o Espiritismo, esquecendo-se que outras leis expressas no Levítico não são hoje respeitadas nem muito menos tidas como corretas, como o olho por olho, dente por dente.

Levítico, 24:20
Quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado algum homem, assim lhe será feito.

Um outro grande exemplo é a pena de morte, já expressa também no versículo primeiramente citado nesse texto e nos seguintes abaixo.

Levítico, 24:17
Quem matar a alguém, certamente será morto.

Levítico, 24:21
Quem, pois, matar um animal, fará restituição por ele; mas quem matar um homem, será morto.

Levítico, 20:10
O homem que adulterar com a mulher de outro, sim, aquele que adulterar com a mulher do seu próximo, certamente será morto, tanto o adúltero, como a adúltera.

Ou ainda em Êxodo, 35:2.
Seis dias se trabalhará, mas o sétimo dia vos será santo, sábado de descanso solene ao Senhor; todo aquele que nele fizer qualquer trabalho será morto .

Julgamos hoje que tais leis procedem? Ora, se não procedem mais, não eram perfeitas; se não eram perfeitas, não podem ser a Lei de Deus. Apenas para esclarecer mais o raciocínio de que a lei mosaica deva ser analisada sob a perspectiva da sociedade a qual ela era dirigida, veja os versículos abaixo.

Levítico, 19:27
Não cortareis o cabelo, arredondando os cantos da vossa cabeça, nem desfigurareis os cantos da vossa barba.

Levítico, 11:1-8
E o porco, porque tem a unha fendida, de sorte que se divide em duas, mas não rumina, esse vos será imundo. Da sua carne não comereis, nem tocareis nos seus cadáveres; esses vos serão imundos.

Se a proibição do contato com os mortos deve ser validada nos dias atuais, por quê não a pena de morte, ou a forma de como se cortar o cabelo e fazer a barba, ou ainda a proibição de se ingerir carne de porco?

Segunda alternativa

Palavras de Jesus são reproduzidas abaixo:

Mateus, 5:38-39
Ouvistes que foi dito: olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.

Mateus, 5:43-44
Ouvistes que foi dito: amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem.

Jesus corrige todos esses aspectos da lei mosaica, trocando o “olho por olho, dente por dente” pelo amor irrestrito ao próximo, mesmo ao inimigo. No entanto, não vemos nunca Jesus corrigir algo com relação a lei promulgada no Monte Sinai - os dez mandamentos -, muito pelo contrário, toda a doutrina moral de Jesus é um desenvolvimento dessas dez leis. Está aí a prova de imperfeição de uma e de perfeição da outra!

Para finalizar, não se vê em momento algum Jesus proibir o contato com os espíritos, sendo que ele próprio o faz, como registrado em Lucas, 9:28-32.

Autor: Roberto Negrão

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