sexta-feira, 6 de junho de 2014

Separação da alma e do corpo

154. A separação da alma e do corpo é dolorosa?
“Não; frequentemente, o corpo sofre mais durante a vida, do que no momento da morte: a alma disso não participa. Os sofrimentos que, algumas vezes, se experimentam no momento da morte, são um gozo para o espírito, que vê chegar o término do seu exílio.”

Na morte natural, a que sobrevém pelo esgotamento dos órgãos, em consequência da idade, o homem deixa a vida sem disto se aperceber: é um lampião que se apaga, por falta de combustível.

155. Como se opera a separação da alma e do corpo?
“Sendo rompidos os elos que a retinham, ela se desprende.”

a) A separação se opera instantaneamente e por uma brusca transição? Há uma linha de demarcação nitidamente traçada entre a vida e a morte?
“Não; a alma se desprende gradualmente e não escapa, como um pássaro cativo, restituído, subitamente, à liberdade. Esses dois estados se tocam e se confundem; assim, o espírito se desprende, pouco a pouco, de seus laços: eles se desatam, não se quebram.”


Durante a vida, o espírito se prende ao corpo por seu envoltório semi-material ou perispírito; a morte é a destruição do corpo somente, e não a deste segundo envoltório, que se separa do corpo, quando nele cessa a vida orgânica. A observação prova que, no instante da morte, o desprendimento do perispírito não se completa subitamente; ele só gradualmente se opera e com uma lentidão muito variável, conforme os indivíduos; em uns ele é bastante rápido e pode-se dizer que o momento da morte é também o da libertação, diferindo em algumas horas; porém, em outros, sobretudo naqueles cuja vida foi toda material e sensual, o desprendimento é muito menos rápido e dura, algumas vezes, dias, semanas e até meses, o que não implica existir no corpo a menor vitalidade, nem a possibilidade de um retorno à vida, mas, uma simples afinidade entre o corpo e o espírito, afinidade que está sempre em razão da preponderância que, durante a vida, o espírito deu à matéria. 

Com efeito, é racional conceber que quanto mais o espírito se haja identificado com a matéria, mais tenha dificuldade de se separar dela; enquanto que a atividade intelectual e moral, a elevação dos pensamentos operam um começo de desprendimento, mesmo durante a vida do corpo e, quando a morte chega, ele é quase instantâneo. Este é o resultado dos estudos feitos em todos os indivíduos observados, no momento da
morte. Estas observações provam, ainda, que a afinidade que, em alguns indivíduos, persiste entre a alma e o corpo é, algumas vezes, muito penosa, pois o espírito pode experimentar o horror da decomposição. Este caso é excepcional e próprio a certos gêneros de vida e a certos gêneros de morte; ele se apresenta em alguns suicidas.

156. A separação definitiva da alma e do corpo pode acontecer antes da cessação completa da vida orgânica?
“Na agonia, a alma, algumas vezes, já deixou o corpo: nada mais há senão a vida orgânica. O homem não tem mais consciência de si mesmo e, todavia, resta-lhe ainda um sopro de vida. O corpo é uma máquina que o coração faz funcionar; ele existe, enquanto o coração faz circular o sangue nas veias, e para isso, não necessita da alma.”

157. No momento da morte, a alma tem, algumas vezes, uma aspiração ou êxtase que lhe faz entrever o mundo para onde vai retornar?
“Frequentemente, a alma sente quebrarem-se os elos que a prendem ao corpo; faz, então, todos os esforços para rompê-los inteiramente. Já em parte desprendida da matéria, vê o futuro desenro-lar-se diante de si e goza, por antecipação, do estado de espírito.”

158. O exemplo da lagarta que, primeiramente, se arrasta pela terra, depois, encerra-se na sua crisálida sob uma morte aparente, para renascer com uma existência brilhante, pode dar-nos uma ideia da vida terrestre, depois do túmulo e, finalmente, de nossa nova existência?
“Uma pequena ideia. A imagem é boa; no entanto, é preciso não a tomar ao pé da letra, como frequentemente vos acontece.”

159. Que sensação experimenta a alma, no momento em que se reconhece no mundo dos espíritos?
“Isso depende; se fizeste o mal com o desejo de praticá-lo, no primeiro momento, tu te sentirás envergonhado de tê-lo feito. Para o justo, é bem diferente: ela fica como que aliviada de um grande peso, pois não teme nenhum olhar perscrutador.”

160. O espírito reencontra, imediatamente, aqueles que conheceu na Terra e que morreram antes dele?
“Sim, conforme a afeição que se dedicavam mutuamente; frequentemente, eles vêm recebê-lo, quando da sua entrada no mundo dos espíritos e o ajudam a se desligar das faixas da matéria; como também há muitos que ele reencontra, depois de os haver perdido de vista, durante sua estada na Terra; vê os que estão na condição de errantes; os que estão encarnados e vai visitá-los.”

161. Na morte violenta e acidental, quando os órgãos ainda não se enfraqueceram pela idade ou as doenças, a separação da alma e a cessação da vida acontecem simultaneamente?
“Geralmente assim é, porém, em todos os casos, o instante que as separa é muito curto.”

162. Após a decapitação, por exemplo, o homem conserva, durante alguns instantes, a consciência de si mesmo?
“Muitas vezes ele a conserva durante alguns minutos, até que a vida orgânica esteja completamente extinta. Porém, frequentemente também, a apreensão da morte o faz perder essa consciência antes do instante do suplício.”

Trata-se, aqui, apenas da consciência que o supliciado pode ter de si mesmo, como homem e por intermédio dos órgãos, e não como espírito. Se não perdeu essa consciência antes do suplício, pode, então, conservá-la por alguns brevíssimos instantes. Ela cessa, necessariamente, com a vida orgânica do cérebro, o que não implica que o perispírito esteja inteiramente desligado do corpo; ao contrário, em todos os casos de morte violenta, quando ela não se deu pela extinção gradual das forças vitais, os elos que unem o corpo ao perispírito são mais tenazes e o desligamento completo é mais lento.


Autor: Allan Kardec
Do livro: O Livro dos Espíritos

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