segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Anotações Necessárias

Anotações Necessárias
Anotações Necessárias
Declara-se você extremamente surpreendido com o tratamento carinhoso que os amigos desencarnados dispensam a determinados amigos do mundo.

E acrescenta: “— Aqui vemos uns homem de maus propósitos a quem vocês classificam por “meu querido irmão”, ali, notamos a presença de um ladrão medalhado a quem chamam “meu caro amigo” e, acolá, não raro, encontramos um malfeitor confesso, a quem se dirigem, usando as doces palavras “meu fi lho...”

“Será isto razoável? — pergunta você, com desapontamento — não será encorajar a má-fé e o crime? Por que não convidar semelhantes pessoas ao reconhecimento das nódoas e sombras que lhe afeiam a vida?”

Se você estivesse aqui conosco, no mundo da realidade maior, observaria, decerto, como é difícil manobrar a verdade. Não que a desestimemos, mas, porque a verdade, para nós, traz consigo, com a evidência dos fatos, a responsabilidade de enobrecer o caminho.


Não basta verificar se o fruto está podre. É preciso aproveitar a boa semente. No turbilhão da carne, estreito à visão de superfície, desvaira-se o homem no julgamento insensato. Aqui, no entanto, renovados pelo elixir do tempo e da morte, acalmam-se os impulsos.

Aprendemos a examinar os outros no espelho da própria consciência e, quase sempre, acabamos tal apreciação levantando os acusados do banco dos réus para aí nos sentarmos, em lugar deles. Habituamo-nos, dessa forma, a definir uma criatura não através do momento desagradável que lhes compromete a transitória existência humana, mas sim pelo conjunto das qualidades e realizações, esperanças e sonhos que lhes assinalam a marcha.

Muitas vezes, “os homens de maus propósitos”, “os ladrões medalhados” e os “malfeitores confessos”, de seu enunciado, não são o que parecem. Em muitas circunstâncias, são doentes e obsediados, requisitando larga dose de paciência e carinho para tornarem a parecer o que são.

Se você sabe agradecer o prato que o sustenta, não desconhece que o lavrador foi constrangido a retirar com muita solicitude os vermes que infestam a lavoura, de modo a não prejudicar a colheita do grão substancioso que lhe supre a mesa. Na experiência comum, dilaceração não é verdade construtiva, tanto quanto violência não significa progresso exato.

Há que se extirpar o tumor usando anestésicos, para que o doente não venha a morrer da cura. Não ignoramos, porém, que há pessoas para as quais os chamamentos afetuosos não quadram corretamente. Procuram o altar da fé, à maneira do animal astucioso ou inconsciente que busca a fonte conspurcando-lhe as águas. Contudo, ainda assim, não será compreensível que os desencarnados assaquem contra eles insultos e palavrões. Manda a cortesia que ninguém enlameie a frase com a baba venenosa da injúria. Todos devemos algo à Lei Divina e a tolerância deve presidir-nos as manifestações uns para com os outros se não desejamos colaborar na extensão do inferno.

Ao demais, segundo admitimos, o trato ameno serve para auxiliar-nos o reajuste próprio. Recolhendo a consideração respeitosa dos outros, aprendemos a respeitar-nos. Nesse sentido, há uma lenda indiana que nos vem à memória. Certo malfeitor, após grande furto, passou a descansar sob árvore veneranda. Procurado por diversas criaturas de sentimento nobre, que se dispunham a aprisiona-lo, ei-lo que toma a atitude de um santo, fingindo-se em profunda meditação. Velhos e jovens que o encontram em semelhante postura, interpretam-no à conta de um mensageiro divino e oram junto dele, abençoando-lhe a presença e trazendo-lhe leite e mel.

Envergonhado de si próprio, o infeliz reconheceu, em silêncio, que se era alvo de tanto apreço e de tamanho carinho simplesmente porque usara a máscara da virtude, com mais razão seria reverenciado e feliz, se procurasse a senda dos justos. E regenerou-se para sempre, consagrando-se à verdadeira comunhão com Deus.

Como vê, meu caro, um gesto amigo e uma frase bondosa conseguem muito, quando nos dispomos à melhoria da própria alma. Não nos esqueçamos de que o próprio Jesus gastou liberalmente a caridade no contato conosco, os pecadores impenitentes da Terra. E, ainda na última hora do martírio, nos tormentos da cruz, disse a um dos ladrões que o cercavam: “— Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”. Até hoje, ninguém sabe ao certo o que foi fazer Dimas nas Alturas, mas há quem creia que apesar das palavras doces do Cristo, que lhe asseguram preciosos recursos de emenda na reencarnação necessária, o antigo salteador terá subido, preliminarmente, ao Céu para receber uma surra.



Autor: Irmão X
Do Livro: Doutrina e Aplicação

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