quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A ação da dor

A ação da dor
A ação da dor
A ação da dor retira de nós o que é impuro e mau, os apetites grosseiros, os vícios, os desejos, tudo o que vem da Terra e deve retornar à Terra. A adversidade é a grande escola, o campo fértil das transformações. Graças aos seus ensinos, as más paixões transformam-se pouco a pouco em paixões generosas, em amor ao bem. Nada está perdido. Mas essa transformação é lenta e difícil. O sofrimento, a luta constante contra o mal, o sacrifício de si mesmo podem, sozinhos, realizá-la. Através deles a alma adquire a experiência e a sabedoria. O fruto verde e ácido, que era a alma, transforma-se, sob as ondas regeneradoras da prova, sob os raios do sol divino, em um fruto doce, perfumado, maduro para os mundos superiores.

Só a ignorância das leis universais nos faz considerar nossos males como desgostos. Se compreendêssemos quanto esses males são necessários ao nosso adiantamento, se soubéssemos apreciar-lhes o amargor, não nos pareceriam mais um fardo. Todos nós odiamos a dor, mas só lhes sentimos a utilidade quando deixamos o mundo onde ela exerce seu império. Entretanto, sua obra é fecunda. Faz eclodir em nós tesouros de piedade, de ternura, de afeição. Aqueles que nunca a
conheceram têm pouco mérito. Sua alma foi esclarecida apenas superficialmente. Nada neles é profundo, nem o sentimento, nem a razão. Não tendo suportado o sofrimento, permanecem indiferentes, insensíveis ao dos outros.

Na nossa cegueira, maldizemos nossas existências obscuras, monótonas, dolorosas; mas quando elevarmos nossos olhares acima dos horizontes limitados da Terra; quando tivermos discernido o verdadeiro motivo da vida, compreenderemos que essas vidas são preciosas, indispensáveis para domar os espíritos orgulhosos, para nos submeter a essa disciplina moral sem a qual não há progresso.

Livres das nossas ações, isentos de males, de cuidados, deixamo-nos levar pelo ardor das nossas paixões, pela sedução do nosso caráter. Longe de trabalhar pelo nosso melhoramento, não fazíamos senão juntarmos às nossas faltas passadas, faltas novas, enquanto que, comprimidos pelo sofrimento, em existências humildes, habitua mo-nos à paciência, à reflexão, adquirimos essa calma do pensamento que, sozinha, permite ouvir a voz do Alto, a voz da razão.



Autor: Léon Denis
Do Livro: Depois da Morte

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