quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Nas profundezas

Nas profundezas
Nas profundezas
A alma encerra profundezas, onde raramente o pensamento desce, porque mil objetos exteriores incessantemente o ocupam. Sua superfície, como a de um mar, é, frequentemente, agitada; mas, abaixo, estendem-se regiões que as tempestades não atingem. Lá, estão adormecidas essas potências ocultas, que aguardam nosso apelo para emergir e aparecer. O apelo raramente se faz ouvir, e o homem se agita em sua indigência, ignorando tesouros inestimáveis que nele repousam.

São necessários o choque das provas, as horas tristes e desoladas, para fazê-lo compreender a fragilidade das coisas exteriores e conduzi-lo à busca de si mesmo, à descoberta de suas verdadeiras riquezas espirituais.

É por isso que as grandes almas tornam-se tanto mais nobres e tanto mais belas, quanto mais vivas forem suas dores. A cada nova infelicidade que as atinge, têm a sensação de estar um pouco mais próximas da verdade e da perfeição e, pensando assim, experimentam uma espécie de amargo deleite. Uma nova estrela se eleva no céu de seu destino, uma estrela cujos raios cintilantes penetram no santuário de sua consciência, clareando-lhe os recônditos. Nas inteligências cultivadas, a infelicidade semeia: cada dor é um sulco, onde
brota uma seara de virtude e de beleza.

Em certas horas da vida, na morte de nossa mãe, no desmoronamento de uma esperança ardentemente acalentada, na perda de uma esposa, de um filho amado, cada vez que se parte um dos elos que nos ligam a este mundo, uma voz misteriosa se eleva, nas profundezas de nossa alma, voz solene que nos fala de mil leis mais sublimes, mais veneráveis que as da Terra, e todo um mundo ideal se entreabre. Mas os ruídos do exterior logo a abafam e o ser humano quase sempre recai em suas dúvidas, suas hesitações, na medíocre vulgaridade de sua existência.



Autor: Léon Denis
Do Livro: O Problema do Ser e do Destino

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...