segunda-feira, 28 de abril de 2014

Considerações e concordâncias bíblicas no tocante à Criação

Os povos formaram ideias muito divergentes sobre a Criação, conforme o grau de suas luzes. A razão, apoiada na Ciência, reconheceu a inverossimilhança de algumas teorias. A que é dada pelos espíritos confirma a opinião há muito tempo admitida pelos homens mais esclarecidos.


A objeção que se pode fazer a esta teoria é a de que ela contraria o texto dos livros sagrados; mas um exame sério leva a reconhecer que essa contradição é mais aparente do que real e que resulta da interpretação dada a algo, com frequência explicado alegoricamente.

A questão do primeiro homem na pessoa de Adão, como origem exclusiva da Humanidade, não é, absolutamente, a única sobre a qual as crenças religiosas tiveram que se retificar. O movimento da Terra pareceu, em determinada época, tão oposto ao texto sagrado, que a toda espécie de perseguições essa teoria serviu de pretexto; e, entretanto, a Terra gira, apesar dos anátemas e ninguém, hoje, poderia contestá-lo sem depor contra sua própria razão.

A Bíblia diz, igualmente, que o mundo foi criado em seis dias e fixa-lhe a época em, aproximadamente, 4000 anos, antes da era cristã. Antes disso, a Terra não existia, tendo sido retirada do nada: o texto é formal; e eis que a Ciência positiva, a Ciência inexorável, vem provar o contrário. A formação do globo está escrita em caracteres imprescritíveis no mundo fóssil e está provado que os seis dias da criação
correspondem a tantos períodos, cada um, talvez, de várias centenas de milhares de anos. Isto não é um sistema, uma doutrina, uma opinião isolada, é um fato tão consistente quanto o do movimento da Terra e que a Teologia não pode recusar-se a admitir, prova evidente do erro que se pode cometer, tomando ao pé da letra as expressões de uma linguagem, frequentemente, figurada. Poder-se-ia daí concluir que a Bíblia é um erro? Não; porém, que os homens se enganaram ao interpretá-la.

A Ciência, escavando os arquivos da Terra, reconheceu a ordem na qual os diferentes seres vivos apareceram em sua superfície e esta ordem está de acordo com o que indica a Gênese, com a diferença de que esta obra, em vez de ter, milagrosamente, saído das mãos de Deus, em algumas horas, efetuou-se, sempre pela sua vontade, porém, segundo a lei das forças da Natureza, em alguns milhões de anos. Deus é, por isso, menor e menos poderoso? Sua obra é, menos sublime, por não ter o prestígio da instantaneidade? Evidentemente, não; seria preciso fazer-se uma ideia muito mesquinha da Divindade para não reconhecer sua onipotência nas leis eternas que ele estabeleceu para regerem os mundos. A Ciência, longe de depreciar a obra divina, no-la mostra sob um aspecto mais grandioso e mais condizente com as noções que temos do poder e da majestade de Deus, pelo próprio fato de que ela efetuou-se sem derrogar as leis da Natureza.

A Ciência, nesse ponto, de acordo com Moisés, coloca o homem em último lugar, na ordem da criação dos seres vivos; Moisés, porém, coloca o dilúvio universal, no ano de 1654,67 enquanto que a Geologia nos mostra o grande cataclismo como anterior à aparição do homem, visto que, até hoje, nenhum traço de sua presença foi encontrado nas camadas primitivas, nem o de animais da mesma categoria, do ponto de vista físico; mas, nada prova que isso seja impossível. Várias descobertas já lançaram dúvidas a esse respeito; pode, pois, acontecer que de um momento para o outro, adquira-se a certeza material desta anterioridade da raça humana e, então, reconhecer-se-á que, sobre este ponto, como sobre outros, o texto bíblico é uma figura. A questão está em saber se o cataclismo geológico é o mesmo de Noé; ora, o tempo necessário à formação das camadas fósseis não permite confundi-los e, desde o momento em que se encontrem os traços da existência do homem, antes da grande catástrofe, ficará provado, ou que Adão não é o primeiro homem, ou que a sua criação se perde na noite dos tempos. Contra a evidência, não há raciocínios possíveis e será preciso aceitar esse fato, como se aceitaram o do movimento da Terra e os seis períodos da Criação.

É verdade que a existência do homem, antes do dilúvio geológico, ainda é hipotética, porém, eis aqui algo que não é tanto: admitindo-se que o homem tenha aparecido pela primeira vez na Terra 4.000 anos antes de Cristo, se 1.650 anos mais tarde toda a raça humana foi destruída, com exceção de uma única família, daí resulta que o povoamento da Terra data apenas de Noé, isto é, de 2.350 anos antes da nossa era. Ora, quando os hebreus emigraram para o Egito, no décimo oitavo século,78 encontraram esse país muito povoado e já bastante adiantado em civilização. A História prova que, nessa época, as Índias e outros países estavam igualmente florescentes, sem mesmo se levar em conta a cronologia de alguns povos, que remonta a uma época bem mais recuada. Teria sido necessário, portanto, que do vigésimo quarto ao décimo oitavo século, isto é, no espaço de 600 anos, não somente a posteridade de um único homem tivesse podido povoar todas as imensas regiões, então conhecidas, supondo que as outras não o fossem, mas também que, nesse curto intervalo de tempo, a espécie humana tivesse podido elevar-se da ignorância absoluta do estado primitivo ao mais alto grau do desenvolvimento intelectual, o que contraria todas as leis antropológicas.

A diversidade das raças vem, ainda, ratificar esta opinião. O clima e os costumes produzem, certamente, modificações de caráter físico; sabe-se, contudo, até onde pode ir a influência destas causas e o exame fisiológico prova que há, entre certas raças, diferenças constitucionais mais profundas do que as que o clima pode produzir. O cruzamento das raças origina os tipos intermediários; ele tende a apagar os caracteres extremos, mas não os produz; cria apenas variedades. Ora, para que tenha havido cruzamento de raças, seria preciso que houvesse raças distintas. E como explicar a existência delas, dando-lhes uma origem comum e, sobretudo, tão próxima?

Como admitir que, em poucos séculos, alguns descendentes de Noé tenham-se transformado ao ponto de produzirem a raça etíope, por exemplo; uma tal metamorfose não é mais admissível, que a hipótese de uma origem comum para o lobo e a ovelha, o elefante e o pulgão, o pássaro e o peixe. Ainda uma vez, nada poderia prevalecer contra a evidência dos fatos. Ao contrário, tudo se explica, admitindo-se a existência do homem, antes da época que, vulgarmente, lhe é atribuída; a diversidade das origens; Adão vivendo há 6.000 anos, povoando uma região ainda desabitada; o dilúvio de Noé, como uma catástrofe parcial, confundida com o cataclismo geológico; finalmente,levando-se em conta a forma alegórica própria ao estilo oriental e que se encontra nos livros sagrados de todos os povos. Eis por que que é prudente não agir com leviandade, julgando falsas doutrinas que podem, mais cedo ou mais tarde, como tantas outras, desmentir aqueles que as combatem. As ideias religiosas, longe de perderem, se engrandecem, caminhando com a Ciência; este o único meio de não mostrarem um lado vulnerável ao ceticismo.


Autor: Allan Kardec
Do Livro: O Livro dos Espíritos

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