domingo, 31 de julho de 2016

A Caridade

A Caridade
A Caridade
Em oposição às religiões exclusivas que tomaram como preceito: “Fora da Igreja não há salvação”, como se seu ponto de vista puramente humano pudesse decidir a sorte dos seres na vida futura, Allan Kardec coloca essas palavras no frontispício de suas obras: Fora da Caridade não há salvação. Os espíritos nos ensinam, com efeito, que a caridade é a virtude por excelência; só ela dá a chave dos planos elevados.

“É preciso amar os homens”, repetem após o Cristo, que resumira nessas palavras todos os mandamentos da lei moral.

Mas, objetam, os homens não são muito amáveis. Muita maldade incuba-se neles e a caridade é muito difícil de se praticar com relação a eles.

Se os julgamos dessa forma, não será porque nos agrada considerar unicamente o lado mau dos seus caracteres, seus defeitos, suas paixões, suas fraquezas, esquecendo, com muita frequência, de que nós mesmos não estamos isentos e que, se eles têm necessidade de caridade, teremos menos necessidade de indulgência?

Todavia, o mal não reina sozinho nesse mundo. Há no homem, também, o bem, qualidades, virtudes. Há, sobretudo, sofrimentos. Se queremos ser caridosos e devemos sê-lo, em nosso próprio interesse como no interesse da ordem social, não nos prendamos, nos nossos julgamentos sobre nossos semelhantes, naquilo que pode nos levar à maledicência, à difamação, mas vejamos sobretudo no homem um companheiro de provas, um irmão de armas na luta da vida. Vejamos os males que ele suporta em todas as classes da sociedade. Quem é que não esconde uma chaga no fundo da sua alma? Quem não suporta o peso de desgostos, de amarguras? Se nos colocássemos nesse ponto de vista para considerar o próximo, nossa maledicência transformar-se-ia rapidamente em simpatia.


Ouve-se, muitas vezes, recriminar a grosseria e as paixões brutais das classes operárias, as cobiças e as reivindicações de alguns homens do povo. Refletimos bastante nos maus exemplos que os envolveram desde a infância? As necessidades da vida, as necessidades imperiosas de cada dia lhes impõem uma tarefa rude e absorvente. Nenhum lazer, nenhum espaço de tempo para esclarecer sua inteligência. As doçuras do estudo, os gozos da arte lhes são desconhecidos. O que sabem sobre as leis morais, sobre seu destino, sobre o mecanismo do Universo? Poucos raios consoladores projetam-se nessas trevas. Para eles, a luta cruel contra a necessidade é de todos os instantes. O desemprego, a doença, a negra miséria os ameaçam e assediam, incessantemente. Qual o caráter que não se exasperaria em meio a tantos males? Para suportá-los com resignação, é preciso um verdadeiro estoicismo, uma força da alma tanto mais admirável quanto mais instintiva que racional.

Ao invés de atirar pedras nesses desafortunados, apliquemo-nos em aliviar seus males, enxugar suas lágrimas, trabalhar com todas as nossas forças para introduzir na Terra uma partilha mais equitativa dos bens materiais e dos tesouros do pensamento. Não se sabe suficientemente o que podem fazer sobre essas almas ulceradas: uma boa palavra, um sinal de interesse, um cordial aperto de mão. Os vícios do pobre desagradam-nos e, entretanto, quanta desculpa não merece por causa de sua miséria! Mas queremos ignorar suas virtudes, que são muito mais admiráveis, por desabrocharem no lodaçal.



Autor: Léon Denis
Do livro: Depois da Morte

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