domingo, 29 de abril de 2012

A hora derradeira


A hora derradeira
Deixando sua morada corporal, o espírito que a dor e o sacrifício purificaram vê sua existência passada recuar, afastar-se pouco a pouco com suas amarguras e suas ilusões, depois vê dissipar-se como as brumas que na aurora rastejam sobre o solo e desvanecem diante do clarão do dia. O espírito encontra-se, então, na incerteza entre duas sensações, a das coisas materiais que se apagam e a da nova vida que se desenha diante dele. Essa vida, ele já a entrevê, como através de um véu; cheia de um encantamento misterioso, temível e desejada ao mesmo tempo. Logo a luz cresce, não mais essa luz solar que nos é conhecida, mas uma luz difusa, espalhada em toda parte. Progressivamente, ela o inunda, penetra-o, e, com ela, um sentimento de felicidade, uma mistura de força, de juventude, de serenidade. O espírito mergulha-se nessa onda reparadora. Despoja-se aí das suas incertezas e de seus temores. Depois seu olhar desprende-se da Terra, dos seres chorosos que envolvem seu leito mortuário, e se volta para as alturas. Entrevê os céus imensos e outros seres amados, amigos de antigamente, mais jovens, mais vivos, mais belos, que vêm recebê-lo, guiá-lo no seio dos espaços. Com eles, lança-se e sobe até as regiões etéreas que seu grau de depuração permite-lhe atingir. Lá, sua perturbação termina, faculdades novas nele despertam, seu destino feliz começa.


A entrada na outra vida causa impressões tão variadas quanto a situação moral dos espíritos. Aqueles — e o número é grande — cuja existência se desenvolve indecisa, sem faltas graves nem méritos notáveis, encontram-se mergulhados, primeiro, num estado de torpor, num abatimento profundo; depois um choque vem sacudir seu ser. O espírito sai lentamente do seu invólucro: recupera sua liberdade, mas hesitando, tímido, não ousa usá-la ainda e permanece preso pelo temor e o hábito aos lugares onde viveu. Continua a sofrer e a chorar com aqueles que partilharam da sua vida. O tempo corre para ele sem que o perceba; com o tempo, outros espíritos o assistem com seus conselhos, ajudam-no a dissipar sua perturbação, a libertar-se das últimas correntes terrestres e a elevar-se para meios menos obscuros.



Autor: Léon Denis
Do livro: Depois da Morte

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...