segunda-feira, 26 de maio de 2014

Anjos e Demônios

128. Os seres que chamamos anjos, arcanjos, serafins, formam uma categoria especial, de natureza diferente dos outros Espíritos?
“Não; são os espíritos puros: os que estão no mais alto grau da escala e reúnem todas as perfeições.”

A palavra anjo desperta, geralmente, a idéia da perfeição moral; todavia, ela é aplicada, freqüentemente, a todos os seres, bons e maus, que estão fora da Humanidade. Diz-se: o anjo bom e o anjo mau; o anjo da luz e o anjo das trevas; neste caso, ela é sinônimo de Espírito ou de gênio. Nós a tomamos, aqui, na sua melhor acepção.

129. Os anjos percorreram todos os graus da escala?
“Percorreram todos os graus, mas como já o dissemos: uns aceitaram suas missões sem murmúrio e chegaram mais depressa; outros levaram um tempo mais ou menos longo para chegar à perfeição.”

130. Se a opinião que admite seres criados perfeitos e superiores a todas as outras criaturas é errônea, como se explica que ela esteja na tradição de quase todos os povos?
“Fica sabendo que teu mundo não existe de toda a eternidade e que, muito tempo antes que ele existisse, espíritos já haviam atingido o grau supremo; então, os homens acreditaram que eles sempre tivessem sido dessa forma.”

131. Há demônios, no sentido que se dá a esta palavra?
“Se houvesse demônios, seriam obra de Deus. E Deus seria justo e bom tendo criado seres eternamente
votados ao mal e desgraçados? Se há demônios, eles residem no teu mundo inferior e em outros semelhantes. São esses homens hipócritas que fazem de um Deus justo, um Deus mau e vingativo e que acreditam agradá-lo pelas abominações que cometem em seu nome.”

A palavra demônio só implica a idéia de Espírito mau, na sua acepção moderna, pois a palavra grega daïmon, da qual ela derivou, significa gênio, inteligência e se referia aos seres incorpóreos bons ou maus, sem distinção.

Os demônios, conforme a acepção vulgar da palavra, supõem seres essencialmente maléficos; eles seriam, como todas as coisas, criação de Deus. Ora, Deus, que é soberanamente justo e bom, não pode ter criado seres predispostos ao mal, pela sua própria natureza, e condenados pela eternidade. Se não fossem obra de Deus, existiriam, portanto, como ele, de toda a eternidade, ou, então, haveria várias potências soberanas.

A primeira condição de qualquer doutrina é ser lógica; ora, a dos demônios, no sentido absoluto, peca por esta base essencial. Concebe-se que na crença dos povos atrasados que, não conhecendo os atributos de Deus, admitem divindades malfazejas, admitam-se, também, demônios; mas, para quem quer que considere a bondade de Deus um atributo por excelência, é ilógico e contraditório supor que ele tenha podido criar seres votados ao mal e a praticá-lo perpetuamente, pois isto é negar-lhe a bondade. Os partidários dos demônios apóiam-se nas palavras do Cristo; certamente não seremos nós que contestaremos a autoridade de seus ensinos, que gostaríamos de ver mais no coração do que na boca dos homens; mas, será que se tem certeza do sentido que ele dava à palavra demônio? Não se sabe que a forma alegórica constitui uma das marcas distintivas de sua linguagem? E se deve tomar ao pé da letra tudo o que o Evangelho contém? Não precisamos de outra prova, senão a desta passagem:

“Logo após esses dias de aflição, o Sol se escurecerá e a Lua não dará mais a sua luz, as estrelas cairão do céu e as potências do céu fi carão abaladas. Digo-vos, em verdade, que essa raça não passará, senão quando todas estas coisas se tiverem cumprido.” Não temos visto a forma do texto bíblico ser contestada pela Ciência, no que toca à criação e ao movimento da Terra? Não pode ser da mesma forma com algumas figuras empregadas pelo Cristo, que devia falar de acordo com os tempos e os lugares? O Cristo não pode ter dito, conscientemente, uma coisa falsa; se, portanto, nas suas palavras, há coisas que parecem chocar a razão, é que não as compreendemos, ou as interpretamos mal.

Os homens fizeram com os demônios o mesmo que fizeram com os anjos; assim como acreditaram em seres perfeitos desde toda a eternidade, tomaram os Espíritos inferiores como seres perpetuamente maus. A palavra demônio deve, portanto, compreender os espíritos impuros que, freqüentemente, não valem mais do que aqueles designados sob esse nome, mas com a diferença de que o estado deles é apenas transitório. São espíritos imperfeitos que reclamam contra as provas que experimentam e que, por isso, suportam-nas durante mais tempo, mas, que conseguirão vencer, por sua vez, quando tiverem vontade. Poder-se-ia, portanto, aceitar a palavra demônio com esta restrição; porém, como ela é entendida, atualmente, num sentido exclusivo, poderia induzir a um erro, fazendo crer na existência de seres especiais criados para o mal.

Com relação a Satã, ele é evidentemente a personificação do mal sob uma forma alegórica, pois não se poderia admitir um ser mau que lutasse, de igual para igual, com a Divindade e cuja única preocupação fosse a de contrariar-lhe os desígnios. Como são necessárias ao homem figuras e imagens, para impressionar-lhe a imaginação, ele pintou os seres incorpóreos sob uma forma material, com atributos que lembram suas qualidades ou seus defeitos.

Foi assim que os antigos, querendo personificar o tempo, pintaram-no, sob a figura de um ancião com uma foice e uma ampulheta; uma fi gura de um jovem teria sido um contra-senso; acontece o mesmo com as alegorias da fortuna, da verdade, etc. Os modernos representaram os anjos, ou puros espíritos, sob uma forma radiosa, com brancas asas, emblema da pureza; Satã, com chifres, garras e os atributos da bestialidade, emblemas das paixões vis. O vulgo, que toma as coisas ao pé da letra, viu, nesses símbolos, indivíduos reais, como, outrora, vira Saturno, na alegoria do Tempo.



Autor: Allan Kardec
Livro: O Livro dos Espíritos

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