sexta-feira, 16 de maio de 2014

Escala Espírita

100. Observações preliminares.
— A classificação dos Espíritos está baseada no grau de adiantamento deles, nas qualidades que adquiriram e nas imperfeições de que ainda têm que se despojar. Esta classificação, aliás, nada tem de absoluta; cada categoria, apenas no seu conjunto, apresenta um caráter distinto; porém, de um grau a outro, a transição é insensível e, nos limites, o matiz se apaga como nos reinos da Natureza, como nas cores do arco-íris, ou ainda, como nos diferentes períodos da vida do homem. Portanto, pode ser formulado um maior ou menor número de classes, segundo o ponto de vista sob o qual se considere a coisa. Ocorre, com este, o mesmo que com todos os sistemas de classificações científicas; estes sistemas podem ser mais ou menos completos, mais ou menos racionais, mais ou menos cômodos para a inteligência. Porém, sejam quais forem, nada mudam na base da Ciência. Os Espíritos, interrogados sobre esse ponto, podem, portanto, ter divergido, quanto ao número das categorias, sem que isso tenha importância. Armaram-se com esta contradição aparente, sem refletir que eles nenhuma importância dão ao que é puramente convencional; para eles o pensamento é tudo: deixam para nós a forma, a escolha dos termos, as classificações, numa palavra, os sistemas.

Acrescentemos ainda esta consideração, que não se deve jamais perder de vista: é que, entre os Espíritos, assim como entre os homens, há os muito ignorantes e não seria demais acautelar-se contra a tendência a crer que todos devem tudo saber, porque são Espíritos. Qualquer classificação exige método, análise e o conhecimento aprofundado do assunto. Ora, no mundo dos Espíritos, os que possuem conhecimentos limitados são, como neste mundo, os ignorantes, incapazes de apreender um conjunto, de formular um sistema; só imperfeitamente conhecem ou compreendem qualquer classificação; para eles, todos os Espíritos
que lhes são superiores pertencem à primeira ordem, pois não podem apreciar os matizes de saber, de capacidade e de moralidade que os distinguem, como entre nós, um homem rude, com relação a homens civilizados. Mesmo aqueles que são capazes disto, podem divergir quanto às particularidades, conforme
sejam os seus pontos de vista, principalmente, quando uma divisão nada tem de absoluta. Linée, Jussieu, Tournefort, tiveram, cada um, o seu método, e a Botânica não mudou por isso; é que eles não inventaram as plantas, nem suas características; observaram as analogias, segundo as quais, formaram os grupos ou classes. Foi desta maneira que procedemos; não inventamos os Espíritos, nem seus caracteres; vimos e observamos, julgamo-los pelas suas palavras e seus atos, depois, os classificamos pelas semelhanças, baseando-nos em dados que eles próprios nos forneceram.

Geralmente, os Espíritos admitem três categorias principais ou três grandes divisões. Na última, a que fica na base da escala, estão os Espíritos imperfeitos, caracterizados pela predominância da matéria sobre o Espírito e a propensão para o mal. Os da segunda, caracterizam-se pela predominância do Espírito sobre a matéria e pelo desejo do bem: são os bons Espíritos. A primeira, enfim, compreende os puros Espíritos, os que atingiram o grau supremo de perfeição.

Esta divisão parece-nos perfeitamente racional, apresentando características bem distintas; só nos restava ressaltar, através de um número sufi ciente de subdivisões, os principais matizes do conjunto; foi o que fizemos, com o concurso dos Espíritos, cujas instruções benévolas jamais nos faltaram.

Com o auxílio desse quadro, será fácil determinar a ordem e o grau de superioridade ou de inferioridade dos Espíritos com os quais possamos nos relacionar e, por conseguinte, o grau de confiança e de estima que mereçam; é, de certo modo, a chave da ciência espírita, pois só ele pode explicar anomalias que as comunicações apresentam, esclarecendo-nos sobre as desigualdades intelectuais e morais dos Espíritos. Ressaltaremos, entretanto, que os Espíritos não pertencem, definitivamente, a esta ou àquela classe; o progresso deles apenas gradualmente se efetua e, com freqüência, mais num sentido do que num outro; podem reunir os caracteres de várias categorias, o que é fácil apreciar pela linguagem deles e pelos seus atos.


Autor: Allan Kardec
Livro: O Livro dos Espíritos

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