sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A crise moral

A crise moral
A crise moral
O espírito humano flutua, indeciso, entre as solicitações de duas potências.

De um lado, as religiões com seu cortejo de erros e de superstições, seu espírito de dominação e de intolerância; mas também, com as consolações das quais são a fonte e as fracas luzes que guardaram das verdades primordiais. Do outro, a Ciência, materialista nos seus princípios como nos seus fins, com suas frias negações e sua tendência exagerada ao individualismo; mas também, com o prestígio das suas descobertas e de seus benefícios.

E esses dois colossos, a religião sem provas e a Ciência sem ideal, desafiam-se, exterminam-se, combatem-se sem poder vencer-se, pois cada uma delas responde a uma necessidade imperiosa do homem, uma, falando ao seu coração, a outra, dirigindo-se ao seu espírito e à sua razão. Em torno delas acumulam-se as ruínas de numerosas esperanças e de aspirações destruídas; os sentimentos generosos enfraquecem-se, a divisão e o ódio substituem a benevolência e a concórdia.

No meio dessa confusão de ideias, a consciência perdeu o seu caminho. Ela vai, ansiosa, ao acaso e, na incerteza que pesa sobre ela, o bem e o justo curvam-se. A situação moral de todos os infelizes que se dobram sob o fardo da vida tornou-se intolerável; entre duas doutrinas que apenas oferecem como perspectivas às suas dores, como termo aos seus males, uma, o nada, a outra, um paraíso quase inacessível ou uma eternidade de suplícios.


As consequências desse conflito se fazem sentir em toda a parte, na família, no ensino e na sociedade. A educação viril desapareceu. Nem a Ciência, nem a religião sabem mais fazer as almas fortes e bem armadas para os combates da vida. A Filosofia, ela própria, dirigindo-se somente a algumas inteligências abstratas, abdica dos seus direitos sobre a vida social e perde toda a influência.

Como a Humanidade sairá desse estado de crise? Só há um meio para isso: encontrar um terreno de conciliação onde as duas forças inimigas, o sentimento e a razão, possam unir-se para o bem e a salvação de todos. Pois todo ser humano traz em si essas duas forças, sob o império das quais ele pensa e age, alternadamente. Seu acordo obtém das suas faculdades o equilíbrio e a harmonia, centuplica seus meios de ação e dá à sua vida a retidão, a unidade de tendências e de vistas, enquanto que suas contradições e suas lutas causam-lhe a desordem. E o que se produz em cada um de nós, manifesta-se na sociedade inteira e causa a perturbação moral da qual ela sofre.



Autor: Léon Denis
Do livro: Depois da Morte

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