sábado, 29 de outubro de 2016

Paciência e bondade

Paciência e bondade
Paciência e bondade
A paciência é essa qualidade que nos ensina a suportar com calma todos os aborrecimentos. Não consiste em apagar em nós qualquer sensação, em nos tornar indiferentes, inertes, mas em procurar, além dos horizontes do presente, as consolações que nos fazem considerar fúteis e secundárias as tribulações da vida material.

A paciência conduz à benevolência. Como espelhos, as almas nos devolvem o reflexo dos sentimentos que nos inspiram. A simpatia atrai a simpatia, e a indiferença engendra o amargor.

Aprendamos, quando for necessário, a reprimir com doçura, a discutir sem arrebatamento, a julgar todas as coisas com benevolência e moderação: fujamos de tudo o que apaixona e sobre-excita.

Abstenhamo-nos, sobretudo, da cólera, que é o despertamento de todos os instintos selvagens, amortecidos em nós pelo progresso e a civilização, uma reminiscência de nossas vidas obscuras. Em cada homem, o animal subsiste ainda através de certos aspectos, o animal que devemos domar pela força, se não quisermos ser dominados, escravizados por ele. Na cólera, esses instintos adormecidos despertam e fazem do homem uma fera. Assim, dissipa-se toda dignidade, toda razão, todo respeito de si mesmo. A cólera cega-nos, faz-nos perder a consciência de nossos atos e, na sua fúria, pode conduzir ao crime.


É da natureza do sábio dominar-se sempre, e a cólera é o indício de um caráter atrasado. Aquele que para isso está inclinado deverá vigiar com cuidado suas impressões, abafar em si o sentimento da personalidade, nada fazer, nada dizer, enquanto se sentir sob o império dessa terrível paixão.

Esforcemo-nos para adquirir a bondade, qualidade inefável, auréola da velhice; a bondade, cuja posse vale para o seu possuidor esse culto dos sentimentos oferecido pelos humildes e pequenos aos seus guias e protetores.

A indulgência, a simpatia, a bondade apaziguam os homens, atraindo-os para nós, predispondo-os a prestar mais atenção nos nossos conselhos, enquanto que a severidade desagrada e os afasta. A bondade cria-nos assim, uma espécie de autoridade moral sobre as almas, fornece-nos mais oportunidades de sensibilizá-los, de reconduzi-los ao bem. Façamos, portanto, dessa virtude uma tocha, com a ajuda da qual levaremos a luz às inteligências mais obscuras, tarefa delicada, mas que um pouco de amor pelos nossos irmãos e o sentimento profundo de solidariedade tornarão fácil.



Autor: Léon Denis
Do livro: Depois da Morte

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