sábado, 30 de junho de 2018

Homossexualidade: uma perspectiva espírita


 
Homossexualidade: uma perspectiva espírita
Homossexualidade: uma perspectiva espírita
O paradigma espírita de homem é muito revelador: somos espíritos em progresso, que necessitados de múltiplos aprendizados no campo na inteligência e da moral, mergulhamos sucessivamente em corpos, das mais diversas naturezas, em diversos mundos, obedecendo à lógica educativa da necessidade individual. Desse modo, cada encarnação oferecerá ao espírito o(s) cenário(s) irremediavelmente necessário ao seu crescimento.

Reencarnação e planejamento

 É nesse sentido, da diversidade de nossas necessidades de aprendizagens e, portanto, de progresso, que a questão 167 de O Livro dos Espíritos vem nos esclarecer:

O número de existências corporais é limitado, ou o espírito reencarna perpetuamente?
“A cada nova existência, o espírito dá um passo no caminho do progresso; quando se despoja de todas as suas impurezas, não tem mais necessidade das provas da vida corporal”

Entendemos o caminho do espírito como o acúmulo de virtudes. Cada conquista contribui para despojá-lo dessas impurezas, tornando-o forte diante das provas que a matéria lhe oferece. Viver é por si só, um desafio: sair da incompletude para a felicidade, através do desenvolvimento do senso moral.

No livro Missionários da Luz, o mentor Alexandre nos aponta uma importante distinção no que tange ao modo pelo qual o planejamento dessas encarnações se dão. Ele diz que há um “modus operandi” geral, pelo qual “grande percentagem de reencarnações na Crosta se processa em moldes padronizados para todos, no campo de manifestações puramente evolutivas. Mas outra percentagem não obedece ao mesmo programa. Elevando-se a alma em cultura e conhecimentos, e, consequentemente, em responsabilidade, o processo reencarnacionista individual é mais complexo, fugindo à expressão geral, como é lógico[1]. Ora, o que vemos aqui se não um cuidado em oferecer ao espírito, conforme sua maturidade, autonomia, livre-arbítrio, para que, a cada encarnação ele seja ainda mais senhor do seu destino.

[1] André Luiz, por Francisco Cândido Xavier, em Missionários da Luz, capítulo 12 

Com isso queremos abrir a premissa de nossas reflexões nesse curto trabalho, que será a seguinte: nenhuma grande questão moral, que distinga determinada reencarnação do “pacote genérico” em que constam milhares de homens e mulheres sobre a Terra, haverá de ser “por acaso”, ou um por um desvio da Lei. Não há desvios e os grandes traumas que nos abatem são planos individuais, confirmados por nossos guias, para nosso progresso espiritual.

“Os espíritos têm sexo?”

Haveremos, com muita justiça, de concordar que as questões da diversidade da sexualidade humana são um desses aspectos consequentes ao planejamento reencarnatório, necessariamente. Ver-se numa condição corporal que não corresponde à sua psique ou antes disso, ver-se atraído por determinado homem ou mulher que lhe caracterize certo risco social, por conta do preconceito, certamente constitui-se uma das mais difíceis provas por que pode passar um ser nesse campo da sexualidade. Uma prova dessa natureza não poderia deixar de estar no planejamento feito para a encarnação.
Allan Kardec, preocupando-se com o tema e procurando as distinções entre essência e aparência, perguntou em O Livro dos Espíritos:

200. Os espíritos têm sexos?“Não como o entendeis, pois os sexos dependem da organização. Há entre eles amor e simpatia, mas baseados na semelhança dos sentimentos.”
201. O espírito que animou o corpo de um homem pode, numa nova existência, animar o de uma mulher e reciprocamente? “Sim, são os mesmos espíritos que animam os homens e as mulheres.”
202. Quando se é um espírito errante, prefere-se encarnar no corpo de um homem ou de uma mulher? “Isso pouco importa ao espírito; dá-se em função das provas por que haja de passar.”

Fica evidente que do ponto de vista espírita sexo é uma aparência, que durará o tempo em que a necessidade de provar-se durar. Precisando passar por diversas encarnações distintas e recolher de cada uma delas o aprendizado que está ou aquele gênero lhe conferem, o espírito define a polaridade em vai mergulhar, a cada encarnação.

Se por um lado, isso nos leva a compreender que no fim do processo o espírito é um ser assexuado, ou seja, sem polarização, já que terá apreendido o que ambas as experiências podiam lhe conferir, por outro concluímos com certa facilidade que durante o processo, ou seja, na fase em que se reencarna sucessivamente, o espírito terá quase sempre certa preferência, por este ou aquele gênero, consequência da quantidade e da qualidade de suas últimas experiências.

Dificilmente o espírito passando, por exemplo, por algumas dezenas de reencarnações sucessivas em corpo feminino, conseguirá adaptar-se de pronto à polaridade masculina quando a hora desta experiência soar. Foi o que Kardec concluiu em interessante texto publicado na Revista Espírita: “Se essa influência da vida corporal repercute na vida espiritual, o mesmo se dá quando o Espírito passa da vida espiritual para a corporal. Numa nova encarnação, ele trará o caráter e as inclinações que tinha como Espírito; se ele for avançado, será um homem avançado; se for atrasado, será um homem atrasado. Mudando de sexo ele poderá, portanto, sob essa impressão e em sua nova encarnação, conservar os gostos, as inclinações e o caráter inerentes ao sexo que acaba de deixar. Assim se explicam certas anomalias aparentes[2], notadas no caráter de certos homens e de certas mulheres[3].

O trecho grifado nos mobiliza uma interessante reflexão, pois Kardec, em 1866, com uma mente progressista e ousada, falou em anomalia aparente, ou seja, não se trata de diferença essencial, e muito justificada no campo da reencarnação. Vai parecendo, como alguns estudiosos já concluíram, que a orientação sexual do individuo na Terra é mero detalhe, estando o essencial muito mais atrelado ao que se faz da sexualidade do que àquilo que se está. Hetero ou homossexual, são condições circunstanciais, passageiras, enquanto que aquilo que fazemos de nós mesmos e dos outros no campo de nossa sexualidade, esses sim, são elementos formadores de nosso caráter.

[2] Grifo nosso
[3] Revista Espírita, janeiro de 1866. As mulheres têm alma?

O que é normal?

Uma importante discussão social está em alta e para ela ainda há de produzir não só conhecimentos científicos sólidos como também opiniões espíritas com mais amplo embasamento teórico. Trata-se das aproximações e distanciamentos dos conceitos de gênero e sexo. Durante séculos, as condições inversivas, acima expostas, foram tratadas como doença, anormalidade e por isso alvo de perseguição, seja ela moral, seja física, como em muitos povos e épocas.

O sexo é biológico, definido por questões mais ou menos fáceis de se observar, como os níveis hormonais e a aparência do órgão sexual, interno ou externo. Gênero vem sendo definido como a polaridade em que o ser se sente à vontade. Na maior parte dos casos, o sexo está alinhado com o gênero, já que a heterossexualidade prevalece na atual população da Terra. Mas como fica, do ponto de vista espírita os muitos casos em que se dá um certo desalinhamento e aquela alma sente-se atraída por pessoas do mesmo sexo? Essa é uma condição anormal pelo fato de se dar em, estatisticamente, menos pessoas? André Luiz vem em nosso socorro, com um texto espantosamente de 1964:

Como explicar os homossexuais? “Devemos considerar que o espírito reencarna, em regime de inversão sexual, como pode renascer em condições transitórias de mutilação ou cegueira. Isso não quer dizer que homossexuais ou intersexos estejam nessa posição, endereçados ao escândalo e à viciação, como aleijados e cegos não se encontram na inibição ou na sombra para ser delinquentes.

“Compete-nos entender que cada personalidade humana permanece em determinada experiência merecendo o respeito geral no trabalho ou na provação em que estagia, importando anotar, ainda, que o conceito de normalidade e anormalidade são relativos. Lembremo-nos de que se a cegueira fosse a condição da maioria dos espíritos reencarnados na Terra, o homem que pudesse enxergar seria positivamente considerado minoria e exceção.”[4]

[4] Ver anuário espírita de 1964, numero 1. Pergunta 16. Atualmente essa mensagem é encontrada no livro Chico Xavier e suas mensagens no anuário espírita. Editora Boa Nova

À guisa de conclusão, faremos diferente desta vez, dada a natureza do tema, que ainda mexe com muitos conceitos arraigados em nós, e deixaremos a condição de análise e julgamento ao foro íntimo, que será sempre nosso guia, já que, conforme vimos no início, estamos em processo e desenvolvendo nosso senso moral, capaz de perceber a amplitude das leis e do amor de Deus.
Por mais que não me veja em condições de dar qualquer palavra final ao tema dizendo o que é, não posso deixar de dizer ao menos o que, em matéria de Espiritismo (depreendido das citações acima) a homossexualidade não é:

- A orientação homossexual não é uma anormalidade;

- O homossexual não está, por isso só, doente;

- O homem ou a mulher nesta experiência não são menores, inferiores ou incapazes em nada por sua condição sexual;

Oxalá possamos professar, mas também aplicar as máximas cristãs, começando por não julgar as aparências, que são todas elas materiais, deixando que a essência de cada um dê o tom da vida e das relações, que são todas espirituais.


Autor: Saulo Monteiro


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