quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Para que serve a dor?


A todos os que perguntam: Por que a dor? Respondo: Por que polir a pedra, esculpir o mármore, fundir o vitral, martelar o ferro? É com o propósito de construir e adornar o templo magnífico, pleno de reflexos, de vibrações, de hinos, de perfumes, onde todas as artes se combinam para exprimir o divino, preparar a apoteose do pensamento consciente, celebrar a liberação do espírito!

E vede o resultado obtido! De tudo o que, em nós, eram elementos esparsos, materiais disformes e, até mesmo, nos viciosos e decaídos, ruínas e destroços, a dor ergueu, construiu, no coração do homem, um esplêndido altar à Beleza Moral, à Verdade Eterna. 


A estátua, em suas formas ideais e perfeitas, está embutida, escondida, na rocha grosseira. Quando o homem não tem a energia, o saber, a vontade de esculpi-la, então, como dissemos, vem a dor. Ela pega o martelo, o cinzel e, pouco a pouco, com golpes violentos, ou então com o lento e persistente trabalho do buril, a estátua viva se desenha em seus contornos suaves e maravilhosos, sob o quartzo escavado, rebrilha a esmeralda!

Sim, para que a forma se destaque, em suas linhas puras e delicadas, para que o espírito triunfe sobre a substância, para que o pensamento jorre em emanações sublimes, o poeta encontre seus fraseados imortais, e o músico, seus suaves acordes, nossos corações precisam do aguilhão do destino, dos lutos e das lágrimas, da ingratidão, das traições da amizade e do amor, das angústias e das dilacerações; são necessários os caixões de entes queridos cujo enterro acompanhamos, a juventude que foge, a velhice gelada que chega, as decepções, as tristezas amargas que se sucedem. O homem necessita dos sofrimentos, como o fruto da vinha, da prensa que lhe extrai o licor delicado!


Autor: Léon Denis
Do livro: O Problema do Ser e do Destino 

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