quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A Fé



A Fé
A fé é a confiança do homem nos seus destinos, o sentimento que o leva na direção da Potência Infinita; é a certeza de estar seguro no caminho que conduz à verdade. A fé cega é como um fanal, cujo foco vermelho não pode atravessar o nevoeiro; a fé esclarecida é um farol poderoso que ilumina com uma viva claridade a estrada a percorrer.

Não se adquire essa fé sem ter passado pelas provas da dúvida, por todas as angústias que vêm sitiar os investigadores. Há aqueles que não atingem senão a uma opressiva incerteza e que flutuam, longo tempo, entre correntes contraditórias. Feliz daquele que crê, sabe, vê e caminha com segurança! Sua fé é profunda, inabalável. Ela o torna capaz de superar os maiores obstáculos. É nesse sentido que se pode dizer, no sentido figurado, que a fé transporta montanhas; as montanhas representam, aqui, as dificuldades no caminho dos inovadores, as paixões, a ignorância, os preconceitos e o interesse material. 


Comumente só se vê na fé a crença em certos dogmas religiosos aceitos sem exame. Mas a fé é também a convicção que anima o homem e o arrasta para outros objetivos. Há a fé em si mesmo, numa obra material qualquer, a fé política, a fé na pátria. Para o artista, o poeta, o pensador, a fé é o sentimento de ideal, a visão desse foco sublime, iluminado pela mão divina nos píncaros eternos, para guiar a Humanidade na direção do belo e do verdadeiro.

A fé religiosa que faz abstração da razão e se reporta ao julgamento dos outros, que aceita um corpo de doutrina, verdadeiro ou falso, e a ele se submete sem controle, é a fé cega. Na sua impaciência, nos seus excessos, recorre, à vontade, ao constrangimento e conduz ao fanatismo. Encarada sob esse aspecto, a fé é ainda um móvel poderoso. Ela ensinou aos homens a humilharem-se e a sofrer. Pervertida pelo espírito de dominação, foi a causa de muitos crimes, mas, nas suas consequências funestas, mostra-nos, ainda, a extensão dos recursos que nela estão.

Ora, se a fé cega pode produzir tais efeitos, o que não fará a fé apoiada na razão, a fé que julga, discerne e compreende? Alguns teólogos exortam-nos a desprezar a razão, a renegá-la, a esmigalhá-la sob os pés. Fazem objeção a todos os erros nos quais a razão caiu e parecem esquecer que é a própria razão que nos ajudou a corrigilos. Devemos, pois, renegá-la, mesmo quando revela-nos o que é o bem e o belo?


Autor: Léon Denis
Do Livro: Depois da Morte

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