domingo, 19 de agosto de 2018

A Revelação pela Dor

A Revelação pela Dor
A Revelação pela Dor
A dor e o prazer são as duas formas extremas da sensação. Para suprimir uma ou outra, seria necessário suprimir a sensibilidade. Eles são, portanto, inseparáveis, em princípio, e, ambos, necessários à educação do ser que, em sua evolução, deve esgotar todas as formas ilimitadas de prazer e de dor.

A dor física produz sensações; o sofrimento moral, sentimentos. Mas, assim como o vimos acima, no sensorium íntimo, sensação e sentimento confundem-se e fazem uma coisa só.

O prazer e a dor residem, pois, bem menos nas coisas exteriores do que em nós mesmos. Por isso, é tarefa de cada um de nós, regulando suas sensações, disciplinando seus sentimentos, comandar umas e outros e limitar-lhes os efeitos. Epíteto dizia: “As coisas são apenas o que imaginamos que elas sejam”. Assim, pela vontade, podemos domar, vencer a dor, ou, pelo menos, utilizá-la em nosso proveito, fazer dela um instrumento de elevação.


A ideia que fazemos da felicidade e da infelicidade, da alegria e da tristeza, varia infinitamente, segundo a evolução individual. A alma pura, boa, sábia, não pode ser feliz do mesmo modo que a alma vulgar. O que encanta uma, deixa a outra indiferente. À medida que nos elevamos, o aspecto das coisas muda. Assim como a criança que, quando cresce, não liga para as brincadeiras que, anteriormente, a cativavam, a alma que se eleva busca satisfações cada vez mais nobre, graves e profundas. O espírito que observa de cima e considera o objetivo grandioso da vida encontrará mais felicidade, mais paz e serenidade, em um belo pensamento, uma boa obra, um ato de virtude, até mesmo na infelicidade que purifica, do que em todos os bens materiais e no brilho das glórias terrestres, pois, estes nos perturbam, corrompem-nos, embriagam-nos com uma euforia enganadora.

É bastante difícil fazer com que os homens entendam que o sofrimento é bom. Cada qual gostaria de refazer e embelezar a vida do jeito que quisesse, enfeitá-la com todos os atrativos, sem pensar que não há bem sem dor nem ascensão sem esforços.

A tendência geral consiste em fechar-se no círculo estreito do individualismo, do cada um por si; desta forma, o homem se apequena; reduz a estreitos limites tudo o que, nele, é grande, destinado a expandir-se, dilatar-se, crescer: o pensamento, a consciência, resumindo, toda sua alma. Ora, os gozos, os prazeres, a ociosidade estéril, só fazem estreitar ainda mais estes limites, tornar mais acanhados nossa vida e nosso coração. Para quebrar este círculo, para que todas as virtudes ocultas eclodam, a dor é necessária. A infelicidade, as provas fazem brotar em nós as fontes de uma vida desconhecida e mais bela. A tristeza, o sofrer fazem-nos ver, ouvir, sentir mil coisas, delicadas ou vibrantes, que o homem feliz ou o homem vulgar não podem perceber. O mundo material se obscurece; um outro se desenha, vagamente, a princípio, mas que se tornará cada vez mais distinto, à medida que nosso olhar se destaque das coisas inferiores e mergulhe no ilimitado.




Autor: Léon Denis
Do livro: O Problema do Ser e do Destino

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